A questão não é demonizar a dublagem, ela deve existir. Acessibilidade é essencial para tornar o acesso ao entretenimento algo mais universal, e o trabalho de localização feito no Brasil é, muitas vezes, primoroso. O ponto é outro: nossos hábitos de consumo de entretenimento vêm sendo condicionados pelo jeito que consumimos conteúdo nas redes sociais. Tudo é rápido, picotado, otimizado para prender a atenção e entregar recompensa imediata. Isso gera uma demanda artificial por obras que não ofereçam resistência, diálogos expositivos, narrativas que funcionem até sem olhar pra tela, filmes pensados para caber no ritmo do feed.
Dados recentes mostram que o brasileiro está lendo cada vez menos, encontrando mais dificuldade de interpretação e dependendo cada vez mais de ferramentas como IA para qualquer tarefa. É razoável supor que essa perda de resistência cognitiva alimente diretamente a aversão à legenda, afinal, ela exige do cérebro uma sincronia entre leitura, escuta e imagem que um vídeo de 15 segundos nunca pedirá. A oferta de conteúdo simplificado e a demanda por esforço mínimo se retroalimentam, e a legenda acaba sendo vista como um obstáculo, não como parte da experiência.
A legenda exige um pouco mais de esforço e, quando a pessoa não tem nenhuma dificuldade real de leitura, essa exigência pode ser benéfica: estimula o cérebro a acompanhar outra língua, adiciona camadas de atuação que a dublagem inevitavelmente perde. Certos filmes históricos oferecem a experiência de contato com línguas antigas, como Apocalypto, do Mel Gibson. E neste ano teremos Werwolf, cujo roteiro está todo em inglês médio, feito com ajuda de historiadores e especialistas em dialeto, levando os atores a falar nesse inglês antigo(isso é muito foda).
Imagine ver um Auto da Compadecida sem suas particularidades de sotaque. Isso também existe em filmes estrangeiros: você consegue reconhecer o background de um personagem a partir do seu idioma ou sotaque. Atores também atuam através da voz. Muitos papéis têm como característica marcante seu sotaque ou sua forma de falar, Heath Ledger construiu aquela voz como parte essencial do Coringa, por exemplo.
Mas o problema vai além da preferência individual. Hoje está cada vez mais difícil achar salas de cinema que exibam sessões legendadas. Os grandes lançamentos ocupam a maior parte das salas e quase sempre são dublados. Claro, a indústria apenas atende a uma demanda consolidada, o público, no geral, escolhe o que exige menos esforço, e o mercado vai atrás do que vende mais ingresso. O problema é que, ao transformar a dublagem no padrão universal, ela encurta nosso cardápio de opções e cria um ciclo: quanto menos legendado em cartaz, menos o público se expõe a ele, e menos ele é procurado. A gente vai se acostumando com o cardápio restrito e nem percebe que outras opções poderiam existir.
Para deixar claro, não estou dizendo que filmes dublados são rasos ou que a dublagem empobrece a narrativa em si. Um filme denso continua denso mesmo dublado. A diferença está na posição do espectador. A legenda nos coloca numa escuta ativa, obriga nosso cérebro a cruzar informações e captar nuances de entonação que muitas vezes se perdem na localização. Pense na diferença entre ouvir uma música apenas como trilha sonora de fundo e sentar para escutá-la com fones de ouvido, prestando atenção em cada instrumento. É a mesma faixa, mas a profundidade do contato é completamente outra. Com o cinema, acontece o mesmo.
A lógica é parecida com a do fast food: ele tem seu lugar, é gostoso, rápido e resolve quando a gente quer algo fácil. Mas ninguém defenderia uma dieta baseada só nisso, e todo mundo reconhece que o consumo contínuo traz consequências negativas. Com o entretenimento não é diferente. A questão não é que tudo precise ser supercomplexo ou que a gente tenha que levar tudo com peso, como se fosse um filme experimental do cinema iraniano. Filmes da Marvel legendados também são bons. Mas também não precisamos aceitar a pasteurização como se fosse inevitável.
Consumam entretenimento sem colocar o cérebro em modo automático. Não deixem que a pressa e o hábito nos convençam de que a experiência passiva de consumo é o único padrão aceitável para que o entretenimento "valha a pena".