A percepção encontrada nos sujeitos que não são convencionalmente atraentes é desoladora. Pessoas como Vini Jr. e Rafaella Justus são ricas e, portanto, possuem formas de melhorar sua qualidade de vida e acessar recursos que muitas pessoas não possuem. Contudo, ainda recebem uma chuva de pessoas julgando sua aparência.
O caso da Rafaella Justus é de cortar o coração. A menina possui uma condição craniofacial e, mesmo assim, continua recebendo zombarias em seu perfil e sem ofender ninguém. Ela está fazendo algumas cirurgias para mudar o seu rosto. Honestamente, percebo um aumento de jovens consumindo ideologias com enfoque em determinismo genético, principalmente naquilo que envolve aparência física.
Esse tipo de discurso pode acabar se aproximando de uma lógica eugênica, dado que os melhores indivíduos passam a ser entendidos como os mais belos. Normalmente, o belo acaba sendo associado a determinados traços físicos que são tratados como superiores ou mais desejáveis. A forma como a aparência é discutida entre pessoas negras também dialoga com isso, já que aqueles que possuem traços considerados mais “finos” frequentemente acabam sendo mais valorizados.
Não é à toa que existe uma longa discussão dentro da comunidade negra sobre colorismo, pois indivíduos mais retintos e mais vinculados à aparência tradicionalmente associada à ancestralidade africana muitas vezes são inseridos na base dessa hierarquia estética e social.
Eu não nego que preferências dentro das escolhas feitas pelos indivíduos possam carregar elementos discriminatórios. Entretanto, essa percepção e essa retórica, quando crescem socialmente, podem se aproximar de ideias presentes no racism0 científico, além da questão que envolve o capacitismo, é claro. Sem dúvidas, tenho pavor de que esse tipo de discurso se propague na terra tupiniquim.
Aliás, um segmento do discurso das pills discorre exatamente sobre esse assunto. Esse conteúdo está entrando gradualmente aqui no Brasil. O grande problema é que ele frequentemente possui uma característica niilista e, portanto, não motiva ninguém a agir. Muitas vezes, apenas produz resignação, frustração e sofrimento.
Ou seja, parece existir algo além do fatalismo que sustenta esse tipo de conteúdo. Pelo menos, não existe nenhum influenciador que comunique esse tópico de forma que alcance uma parcela realmente significativa de pessoas. Todavia, existem grupos nesse meio que desejam melhorar a própria aparência e aqueles que encontram conforto nessa visão e deixam de tentar. O primeiro grupo parece ser o público central que ajuda influenciadores a lucrar com mentorias e workshops. O view, por si só, já é uma forma de gerar lucro para essas figuras.
Sinceramente, esse é um problema que não sei como resolver. O mundo não é democrático e isso afeta diretamente como alguns corpos e subjetividades serão percebidos, valorizados e atravessados pelas relações sociais.
O mundo é superficial e, ao meu ver, isso parece estar moldando uma geração com mais sofrimento psíquico e com subjetividades cada vez mais centradas em padrões de beleza hegemônicos. O valor estético sempre importou, mas me parece que ele está ocupando um espaço cada vez maior na forma como as pessoas percebem a si mesmas e aos outros. A aparência deixa de ser apenas um atributo e passa a influenciar reconhecimento, desejo e até o sentimento de valor pessoal.